Além do humor triste — o quadro clínico completo e como avaliá-lo.
O quadro clínico abrange sintomas cognitivos, afetivos, comportamentais, físicos e funcionais — nem todo paciente chora
A depressão é frequentemente reduzida a "tristeza" na percepção leiga — e às vezes clínica. Mas o DSM-5 estabelece que o sintoma obrigatório pode ser humor deprimido (tristeza, vazio, desesperança) ou anedonia (perda de interesse ou prazer). Muitos pacientes deprimidos não se identificam com a tristeza como queixa principal.
Eles chegam relatando fadiga inexplicável, dores crônicas sem causa médica, esquecimento, falta de motivação, irritabilidade ou simplesmente a sensação de "estar funcionando no automático" sem sentir nada. A habilidade diagnóstica inclui reconhecer a depressão nessas apresentações atípicas.
Clique em cada sintoma para ver a descrição clínica detalhada. Mínimo de 5 sintomas, incluindo ao menos 1 critério central.
A depressão se manifesta no que o paciente deixa de fazer. Avaliar sistematicamente o funcionamento pré-mórbido versus atual é parte essencial do diagnóstico e do acompanhamento.
Escala ilustrativa: comparação funcionamento atual vs. pré-mórbido
O paciente antes do episódio conseguia: comparecer ao trabalho regularmente, manter relações sociais, cuidar da higiene e alimentação, engajar em hobbies e atividades de lazer.
Tarefas básicas tornam-se monumentais. Tomar banho, responder uma mensagem, preparar uma refeição exigem esforço desproporcional. Obrigações se acumulam. O isolamento aprofunda a depressão.
Mudanças objetivas frequentemente precedem a melhora subjetiva do humor. Identificá-las combate a desesperança e fornece evidência concreta de resposta ao tratamento.
Um erro clínico comum é usar o humor subjetivo como único indicador de progresso. Pacientes em início de resposta frequentemente reportam "ainda não me sinto melhor" enquanto apresentam melhoras claras em outros domínios. Nomear e quantificar essas mudanças é uma intervenção clínica em si — opera diretamente sobre a desesperança.
Sintomas físicos são tão reais quanto os cognitivos — frequentemente são a queixa principal que leva o paciente inicialmente ao médico clínico
A depressão envolve alterações neurobiológicas mensuráveis: desregulação do eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal) com hipercortisolemia crônica, alterações nos sistemas de neurotransmissão (serotonina, dopamina, norepinefrina) e inflamação sistêmica crônica de baixo grau. Esses mecanismos produzem sintomas físicos concretos.
Dúvidas comuns no diagnóstico e manejo da depressão