Princípios da TCC

Modelo ABC

Como situações, crenças e consequências se conectam — e por que a mudança acontece em B, não em A.

A
Antecedente
Situação, evento, pensamento ou sensação que precipita a experiência
B
Crenças / Beliefs
Interpretações, avaliações e pensamentos automáticos sobre A
Aqui a TCC intervém
C
Consequências
Emoções, sensações físicas e comportamentos resultantes de B

O mesmo A — crenças diferentes — consequências diferentes

A situação ativadora (A) não determina como você se sente. A interpretação (B) determina. Ellis demonstrou que duas pessoas diante do mesmo evento podem ter reações completamente opostas.

📱 Amigo não responde a mensagem por 2 horas
A
Situação: Mensagem enviada às 14h, sem resposta às 16h.
B
Crença adaptativa: "Deve estar ocupado. Vai responder quando puder."
C
Consequência: Calma, segue outras atividades.

B
Crença disfuncional: "Ele está com raiva de mim. Estou sendo ignorado. Vou perder esse amigo."
C
Consequência: Ansiedade, ruminação, envia mais mensagens, busca tranquilização.
🎤 Apresentação para o grupo de trabalho
A
Situação: Precisar apresentar um projeto para 12 colegas.
B
Crença adaptativa: "É uma oportunidade de mostrar meu trabalho. Posso sentir ansiedade e isso é normal."
C
Consequência: Ansiedade moderada, preparo adequado, performance funcional.

B
Crença disfuncional: "Vou travar. Vão perceber que sou incompetente. É uma catástrofe."
C
Consequência: Pânico, evitação, pede para cancelar a apresentação.
💓 Coração acelerado no shopping
A
Situação: Taquicardia percebida em local movimentado.
B
Crença adaptativa: "É ansiedade pelo barulho. Meu coração acelera quando estou estressado."
C
Consequência: Desconforto leve, segue as compras.

B
Crença disfuncional: "Vou ter um infarto. Vou desmaiar. Não consigo suportar isso."
C
Consequência: Pânico completo, fuga, evitação futura de shoppings.

Evitação × Exposição

A evitação é o motor de manutenção dos transtornos de ansiedade. A exposição é o antídoto — mas precisa ser conduzida de forma estruturada e hierárquica.

⚠ Ciclo da Evitação

  • Alivia a ansiedade no curto prazo
  • Reforça a crença de que a situação é perigosa
  • Aumenta sensibilidade ao estímulo temido
  • Estreita progressivamente o repertório de vida
  • Impede desconfirmação das crenças disfuncionais
  • Perpetua o transtorno indefinidamente

✦ Ciclo da Exposição

  • Aumenta a ansiedade temporariamente
  • Permite habituação e extinção do medo
  • Desconfirma crenças catastróficas na prática
  • Aumenta autoeficácia e tolerância ao desconforto
  • Expande repertório comportamental
  • Promove recuperação funcional duradoura

Tipos de Exposição na TCC

A TCC utiliza diferentes modalidades de exposição conforme a natureza do transtorno e as possibilidades clínicas.

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Exposição Gradual

Hierarquia de medo estruturada em SUDS (0–100). O paciente começa pelos itens menos ameaçadores e avança progressivamente. Cada passo bem-sucedido fortalece a tolerância ao próximo.

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Exposição Imaginária

Utilizada quando a situação não pode ser recriada ao vivo — memórias traumáticas, situações do passado, eventos futuros. Ativa o processamento emocional via narração vivida e detalhada.

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Exposição Interoceptiva

Específica para Transtorno do Pânico. Provoca deliberadamente sensações físicas temidas (hiperventilação, girar em cadeira, exercício). Quebra a associação sensação → catástrofe.

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Exposição In Vivo

Confronto direto com a situação ou objeto temido na vida real. Máxima validade ecológica — o aprendizado acontece no contexto onde o medo é ativado naturalmente.

Hierarquia de Exposição — SUDS

Subjective Units of Distress Scale — arraste para explorar os níveis

0 — Nenhuma ansiedade100 — Pânico máximo
30
Ansiedade leve — bom ponto de partida
Exemplos: cumprimentar um vizinho, dizer "não" para um pedido pequeno, fazer uma ligação rápida.

Experimento Comportamental

Estrutura para testar uma crença específica. A experiência real muda crenças mais eficazmente do que argumentos verbais.

"Você acredita que vai desmaiar se ficar de pé por 5 minutos. Vamos testar essa hipótese juntos."
Identificar a crença a testar: formulação específica e mensurável. Ex: "Vou desmaiar (P=90%) se permanecer em pé por 5 minutos numa loja."
Definir o experimento: o que será feito, onde, por quanto tempo, e quais dados serão coletados (frequência cardíaca? sensações? desmaiou ou não?).
Fazer a previsão: o paciente anota o que espera que aconteça antes de realizar. Isso torna a comparação posterior possível.
Conduzir o experimento: realizar a atividade acordada, registrando o que realmente aconteceu — sensações, pensamentos, comportamentos.
Analisar os resultados: comparar previsão × realidade. O que isso diz sobre a crença original? O que foi aprendido?
Reformular a crença: "Senti tonteira mas não desmaiei. Meu corpo aguenta mais do que eu pensava. (P revisto=20%)"

Teste seu entendimento

Aplique o Modelo ABC a situações clínicas reais

1. Uma paciente relata: "Fui a uma festa (A), fiquei ansiosa e fui embora cedo (C)." Segundo o Modelo ABC, o que o terapeuta deve investigar a seguir?
2. Por que a exposição gradual começa pelos itens de menor SUDS na hierarquia de medo?