REBT

O Modelo ABC de Ellis

Não são os eventos que nos perturbam — são as crenças que temos sobre eles. Epicteto disse isso há 2.000 anos. Ellis transformou em clínica.

Contexto histórico
A Revolução de Ellis

Albert Ellis criou a REBT em 1955, tornando-se a primeira abordagem a afirmar sistematicamente que crenças, não eventos, causam sofrimento. Radicalmente inspirado pelo estoicismo, Ellis citava Epicteto com frequência: "Não são as coisas que perturbam os homens, mas as opiniões sobre as coisas."

O contexto da época

Em 1955, a psicanálise dominava o campo clínico. Ellis, treinado analiticamente, percebeu que explorar o passado raramente produzia mudança rápida. Desenvolveu então uma abordagem ativa, diretiva, filosófica — e revolucionária.

A herança estoica

Epicteto (50–135 d.C.) foi o principal inspirador. Marco Aurélio, Sêneca. A REBT não foi descoberta — foi redescoberta. A sabedoria estoica ganhou linguagem clínica, técnicas estruturadas e evidência empírica.

Estrutura central
O Modelo ABCDE

Da perturbação à mudança — cinco pontos de acesso

A inovação de Ellis foi identificar exatamente onde intervir: no ponto B. Eventos (A) ativam crenças (B), que produzem consequências (C). A disputa (D) das crenças irracionais gera um novo efeito (E) — emocional e comportamental.

A
Activating Event
Evento ativador — real ou imaginado
Gatilho
B
Belief
Crença — racional ou irracional
Trabalho clínico
C
Consequence
Consequência emocional e comportamental
Resultado de B
D
Dispute
Questionamento ativo e sistemático
Intervenção
E
Effect
Nova crença mais racional → emoção menos perturbadora
Saúde
A inovação central
A não causa C diretamente

Esta é a afirmação mais contraintuitiva — e mais libertadora — da REBT. Duas pessoas vivem o mesmo evento (A) e experimentam consequências radicalmente diferentes (C) dependendo de suas crenças (B). O sofrimento não é inevitável; começa pela crença, não pelo evento.

A cadeia causal real

A relação não é direta. O evento ativa uma crença, que produz a consequência emocional. Suprimir o evento não muda o sofrimento — mudar a crença, sim.

A ativa B → gera C  |  A ≠ causa direta de C

O ponto de poder terapêutico está em B — não em tentar mudar a realidade ou suprimir emoções, mas em examinar honestamente as premissas que conectam o evento à reação.

Distinção clínica fundamental
Perturbação saudável vs. neurótica

Ellis não propunha indiferença emocional. Reconhecia que eventos difíceis produzem — e devem produzir — emoções negativas. A diferença está na intensidade e funcionalidade: emoções saudáveis motivam resolução; emoções neuróticas paralisam.

Saudável

Emoções Funcionais

  • Tristeza — sem depressão paralisante
  • Preocupação — sem pânico
  • Frustração — sem raiva destrutiva
  • Decepção — sem vergonha invalidante
  • Arrependimento — sem culpa obsessiva

→ Motivam resolução e adaptação

Neurótica

Emoções Disfuncionais

  • Depressão — produzida por crenças absolutistas
  • Pânico — medo catastrophizado
  • Raiva destrutiva — "você deve me tratar bem"
  • Vergonha paralisante — depreciação global
  • Culpa debilitante — demanda de perfeição

→ Produzidas por crenças irracionais absolutistas

Aplicação clínica
Exemplo: antes e depois da disputa

Veja como o mesmo evento gera consequências completamente diferentes dependendo da crença — e como a disputa (D) produz um novo efeito (E) mais adaptativo.

Antes da disputa — crenças irracionais

Evento (A) Crença irracional (B) Consequência (C)
Crítica do chefe "Devo ser perfeito sempre. Se errei, sou um fracasso." Ansiedade intensa, evitação, procrastinação
Término de relacionamento "Isso é insuportável, nunca vou encontrar alguém assim. Minha vida acabou." Depressão, isolamento social, desesperança
Reprovação em uma prova "Preciso absolutamente da aprovação de todos. Isso é horrível." Vergonha paralisante, raiva difusa, abandono

Após a disputa (D) — crenças racionais e efeito (E)

Crença racional (B nova) Efeito (E)
"Prefiro fazer um bom trabalho; posso aprender com a crítica. Imperfeição é humana." Decepção saudável → reflexão → ação corretiva
"Isso é muito difícil e doloroso, mas é suportável. Posso me adaptar e criar uma vida nova." Tristeza funcional → luto saudável → abertura gradual
"Prefiro muito ser aprovado, mas não preciso absolutamente disso para ter valor." Frustração tolerável → persistência → recuperação

"Não é o que acontece que nos perturba — é o que dizemos a nós mesmos sobre o que acontece."

— Princípio central da REBT

Perguntas frequentes
Dúvidas sobre o Modelo ABC

REBT é precursora e influenciou diretamente a TCC de Aaron Beck. A diferença principal: REBT usa disputa filosófica mais direta e vigorosa, confrontando ativamente as crenças irracionais; TCC de Beck usa questionamento socrático mais colaborativo e gradual, com ênfase em experimentos comportamentais. Ambas reconhecem o papel central das cognições no sofrimento.

Sim, com adaptações importantes. A linguagem é simplificada e a relação entre pensamento-sentimento-comportamento é trabalhada de forma mais concreta, frequentemente com recursos visuais, jogos e metáforas. Para crianças menores, o foco costuma ser comportamental; para adolescentes, a filosofia de aceitação incondicional é especialmente relevante e bem recebida.

Ellis era direto, filosófico e não raramente provocador — um estilo que surgiu de sua própria superação de timidez e ansiedade social. A prática contemporânea de REBT equilibra rigor intelectual com calor relacional. O estilo de Ellis não é o único caminho: terapeuta e cliente encontram o ritmo adequado. O que permanece essencial é a honestidade intelectual na disputa das crenças.