- Os Três Sistemas de Regulação Emocional na Terapia Focada na Compaixão
- A Terapia Focada na Compaixão (CFT), desenvolvida pelo psicólogo britânico Paul Gilbert a partir dos anos 1980, propõe um modelo de funcionamento emocional humano enraizado na neurociência evolutiva. Sua premissa central é que o cérebro humano evoluiu com múltiplos sistemas de regulação emocional que, em condições ideais, se complementam, mas que, em pessoas com histórico de vergonha, trauma ou autocrítica intensa, se tornam gravemente desequilibrados.
- Gilbert identifica três sistemas de regulação emocional que coexistem em todo ser humano:
- Sistema de Ameaça-Proteção
- O sistema de ameaça é mediado pela amígdala e pelas respostas de cortisol e adrenalina. Foi selecionado evolutivamente para a sobrevivência: detectar perigo com rapidez, gerar respostas de luta, fuga ou congelamento e priorizar ameaças sobre qualquer outra informação do ambiente. É o sistema mais antigo, mais rápido e, em muitos aspectos, o mais poderoso dos três.
- O problema clínico fundamental é que esse sistema não distingue entre ameaças externas reais (um predador, um agressor) e ameaças internas (pensamentos autocríticos, vergonha, antecipação de rejeição). Para a amígdala, o pensamento "sou um fracasso" ativa a mesma cascata fisiológica que uma ameaça física real, o que explica por que a autocrítica intensa produz um sofrimento tão visceral e tão difícil de controlar cognitivamente.
- Sistema de Busca-Incentivo
- O sistema de busca é mediado principalmente pela dopamina e está orientado à motivação, ao prazer antecipado e à conquista de recursos e objetivos. É o sistema que nos move em direção ao que desejamos, parceiros, comida, reconhecimento, realizações. Quando funciona bem, gera energia, entusiasmo e satisfação com o progresso.
- Quando hiperativado, como em estados maníacos, compulsões ou busca de aprovação compulsiva, gera impulsividade e insatisfação crônica, pois a conquista do objetivo nunca produz a satisfação esperada.
- Sistema de Calma-Contentamento
- O sistema de calma é mediado por oxitocina, endorfinas e pelo sistema nervoso parassimpático. Está associado a sentimentos de segurança, pertencimento, contentamento e bem-estar tranquilo. É ativado por experiências de conexão genuína, cuidado mútuo, autocuidado, o ponto central da CFT, práticas de compaixão.
- Esse sistema é biologicamente incompatível com o sistema de ameaça: quando o sistema de calma está ativo, o de ameaça se desativa progressivamente. Essa incompatibilidade biológica é a base fisiológica de toda a CFT. Cultivar compaixão é, literalmente, ativar o sistema de calma para contrarregular o sistema de ameaça cronicamente hiperativo.
- O desequilíbrio clínico
- Em pessoas com vergonha intensa, trauma ou criação punitiva, o sistema de ameaça tende a dominar de forma crônica, enquanto o sistema de calma é subdesenvolvido ou ativamente evitado, pois a compaixão parece perigosa ou insuportável. A CFT trabalha especificamente nessa direção: construir, gradualmente, a capacidade de acesso ao sistema de calma como antídoto ao sofrimento.
- Compassionate Mind Foundation — site de Paul Gilbert
Autocrítica ativa o sistema de ameaça — autocompaixão ativa o sistema de segurança. Não é fraqueza: é neurociência aplicada ao sofrimento humano.