Não são os eventos que nos perturbam, mas as crenças irracionais que temos sobre eles.
O Modelo ABC de Albert Ellis: A Revolução da REBT
A Terapia Racional Emotiva Comportamental (REBT), criada por Albert Ellis em 1955, foi uma das primeiras abordagens a desafiar sistematicamente o behaviorismo dominante e afirmar que os processos cognitivos — especificamente as crenças que as pessoas têm sobre os eventos — são o principal determinante do sofrimento emocional. Essa ideia, radical para a época, antecipou em mais de uma década o trabalho de Aaron Beck e tornou Ellis um dos fundadores da revolução cognitiva em psicologia.
A influência filosófica da REBT é explícita e reconhecida pelo próprio Ellis: ela vai diretamente aos estoicos, em particular a Epicteto, que escreveu no século II d.C.: "Não são as coisas que perturbam os homens, mas as opiniões sobre as coisas." Ellis formalizou esse insight filosófico em uma estrutura terapêutica operacionalizável.
O Modelo ABCDE
O coração da REBT é o modelo ABCDE, que descreve o mecanismo pelo qual os eventos se convertem em sofrimento emocional e, potencialmente, em mudança:
A (Activating Event — Evento Ativador): o evento real ou imaginado que precede a perturbação emocional. Pode ser externo (crítica de um superior, término de um relacionamento) ou interno (um pensamento, uma lembrança, uma sensação física).
B (Belief — Crença): a crença — racional ou irracional — que a pessoa tem sobre o evento ativador. É aqui que o trabalho clínico central acontece.
C (Consequence — Consequência): a consequência emocional e comportamental da crença em B. A inovação central da REBT é demonstrar que A não causa C diretamente — é B que medeia essa relação.
D (Dispute — Disputa): o questionamento ativo e sistemático das crenças irracionais em B, usando argumentos empíricos, lógicos e pragmáticos.
E (Effect — Efeito): o efeito de uma disputa bem-sucedida — uma nova crença mais racional e, como consequência, uma emoção menos perturbadora e um comportamento mais adaptativo.
A inovação central: A não causa C
A consequência mais prática do modelo é a distinção entre perturbação saudável e perturbação neurótica. Tristeza, preocupação, frustração e decepção são respostas emocionais proporcionais a eventos adversos — são perturbações saudáveis, que motivam a resolução de problemas e não prejudicam o funcionamento. Depressão, pânico, raiva destrutiva e vergonha paralisante são perturbações neuróticas — produzidas não pelos eventos, mas pelas crenças irracionais absolutistas que a pessoa tem sobre os eventos.
Duas pessoas podem viver exatamente o mesmo evento (A) e experimentar consequências emocionais radicalmente diferentes (C) dependendo do que acreditam sobre ele (B). Isso é ao mesmo tempo óbvio quando explicado e revolucionário em suas implicações clínicas: o sofrimento não é inevitável, e a mudança começa pela crença, não pelo evento.
Ellis como precursor da TCC
Como precursora direta da TCC, a REBT influenciou o desenvolvimento do modelo cognitivo de Beck e permanece relevante pela clareza de sua estrutura filosófica, pela ênfase na autonomia intelectual do paciente e pelo reconhecimento explícito de que a terapia é, em parte, um processo de educação racional.
Não é o que acontece que nos perturba — é o que dizemos a nós mesmos sobre o que acontece. Epicteto disse isso há 2.000 anos. Ellis o transformou em clínica.
Modelo ABCDE
AEvento ativador
BCrença (Belief)
CConsequência emocional
DDisputa (Dispute)
EEfeito (nova crença)
FSentimento adaptativo
Crenças Irracionais: O que São e Por que Causam Sofrimento
O conceito de crença irracional é central na REBT — mas é frequentemente mal compreendido. Ellis não usava "irracional" para significar "louco", "absurdo" ou "sem sentido". Usava no sentido preciso de crenças que não passam por três critérios de racionalidade: que não são consistentes com a realidade empírica, que não seguem logicamente das premissas disponíveis, e que não servem aos objetivos e ao bem-estar do indivíduo a longo prazo.
Por esse critério, muitas das crenças mais comuns e socialmente aceitas são, na definição de Ellis, irracionais — não por serem incomuns, mas por causarem sofrimento desnecessário sem nenhum benefício adaptativo correspondente.
As quatro categorias de crenças irracionais
Ellis identificou quatro categorias principais de crenças irracionais que se apresentam em diferentes contextos clínicos:
Demandas absolutas: a transformação de preferências em exigências absolutas, expressas pelo vocabulário de "devo", "tenho que", "preciso absolutamente", "você deve". "Eu devo ser aprovado por todos que me importam", "o mundo deve ser justo", "você deve me tratar bem". A absoluticidade é o problema — não a preferência em si, que pode ser saudável.
Awfulizing (catastrofização extrema): a avaliação de eventos ruins como "horrível", "insuportável", "o pior possível" — como se fossem piores do que qualquer coisa que pudesse existir. O awfulizing transforma o difícil em catástrofe e o desconfortável em insuportável.
Baixa Tolerância à Frustração (LFT): a crença de que não se consegue suportar o desconforto, a frustração ou a adversidade — "não consigo lidar com isso", "é insuportável". LFT leva à evitação, à procrastinação e à dependência de conforto imediato.
Depreciação global: a condenação total de si mesmo ou de outros como pessoa inteira com base em comportamentos específicos — "sou um fracasso", "ele é uma pessoa terrível". A depreciação global é diferente da avaliação de comportamentos específicos, que pode ser legítima.
As crenças racionais correspondentes
A REBT não pede que o paciente pense positivamente — pede que pense com precisão e flexibilidade. Para cada crença irracional existe uma crença racional correspondente:
Demanda → preferência: "prefiro muito ser aprovado, mas não preciso absolutamente disso para ter valor ou funcionar."
Awfulizing → avaliação realista: "isso é muito ruim e difícil, mas não é o fim do mundo nem o pior que poderia existir."
LFT → alta tolerância à frustração: "é difícil e desconfortável, mas consigo suportar — e vale a pena suportar para alcançar o que importa."
Depreciação global → aceitação incondicional: comportamentos e escolhas podem ser avaliados como ruins; a pessoa inteira não pode ser legitimamente reduzida a eles.
Aceitação Incondicional de Si Mesmo, dos Outros e da Vida
Ellis defendia que o núcleo da saúde psicológica é a capacidade de aceitação incondicional — de si mesmo (AIS), dos outros (AIO) e da vida (AIV). Não autoestima condicional, que oscila com o desempenho e a aprovação externa. Não aprovação de comportamentos ruins — mas recusa a condenar pessoas inteiras com base em comportamentos específicos.
Essa distinção é sutil mas clinicamente fundamental: "o que fiz foi errado e vou agir diferente" é responsabilidade. "Sou um fracasso como ser humano" é depreciação global — e não muda o comportamento, apenas aumenta o sofrimento.
"Deveria" é a fonte de muito sofrimento desnecessário. "Prefiro muito" é mais honesto, mais flexível e infinitamente mais saudável para a vida que se quer levar.
Tipos de crenças irracionais
📜Demandas absolutas
💀Awfulizing
😤Baixa tolerância
🏷Autodepreciação
👆Condenação do outro
🌍Condenação do mundo
Disputa Cognitiva na REBT: Como Questionar Crenças Irracionais
A disputa (D no modelo ABCDE) é o processo ativo, sistemático e frequentemente vigoroso de questionar as crenças irracionais identificadas em B. Ellis era explícito sobre a necessidade de vigor: suavidade demais na disputa, argumentava, não abala crenças que foram reforçadas ao longo de décadas. A disputa precisa ser intelectualmente honesta e persistente — não cruel, mas genuinamente desafiadora.
O objetivo da disputa bem-sucedida não é a extinção do pensamento irracional, nem a substituição forçada por um pensamento positivo. É a redução progressiva da credibilidade da crença irracional — o paciente ainda terá o pensamento ("deveria ser perfeito"), mas o reconhece como uma crença com história, não como uma lei universal ou um fato objetivo.
Os três eixos da disputa
A disputa na REBT opera em três eixos complementares:
Eixo Empírico (testando a consistência com a realidade): "Onde está a evidência de que você DEVE ser aprovado por todos? Onde está a lei do universo que estabelece essa obrigação? Existem outras pessoas que não são aprovadas por todos e ainda vivem vidas satisfatórias?" O questionamento empírico desafia a factualidade da crença.
Eixo Lógico (testando a coerência interna): "Segue-se logicamente que porque você quer muito ser aprovado, portanto você DEVE ser aprovado? Desejo intenso transforma preferência em necessidade absoluta? A lógica valida essa transformação?" O questionamento lógico expõe a falácia do salto de preferência para exigência.
Eixo Pragmático (testando as consequências): "Acreditar nisso te ajuda a atingir seus objetivos? Te faz sentir melhor ou pior? Facilita ou dificulta a ação eficaz? Essa crença serve a alguma função útil a longo prazo?" O questionamento pragmático apela ao interesse genuíno do paciente.
Disputa comportamental: agir de forma contrária à crença
Além da disputa verbal em sessão, a disputa comportamental é frequentemente mais poderosa: agir de forma deliberada e sistemática de maneira contrária à crença irracional. Para disputar "devo ser aprovado por todos", o paciente é encorajado a tomar uma posição impopular com baixo risco, tolerar a desaprovação resultante e observar que consegue suportar — e que o mundo não colapsa.
A disputa comportamental é mais eficaz que a verbal porque ela produz experiência direta, não apenas argumento intelectual. O paciente não apenas conclui que a crença pode ser falsa — ele experiencia que é possível sobreviver, e até crescer, sem a aprovação que julgava indispensável.
O papel do calor na relação terapêutica
Ellis ficou famoso por disputas diretas e às vezes provocativas — o que funcionava em seu estilo carismático e intelectualmente arrojado, mas pode alienar pacientes com vergonha ou trauma. A prática clínica contemporânea equilibra o rigor intelectual da disputa com o calor relacional: a disputa é feita de forma colaborativa, com genuíno respeito pelo sofrimento do paciente, dentro de uma aliança terapêutica sólida. Dispute com rigor — mas dentro de um contexto de cuidado genuíno.
O resultado bem-sucedido do processo é expresso no E do modelo: uma nova crença — mais precisa, mais flexível, mais consistente com a realidade — que produz uma emoção menos perturbadora e um comportamento mais alinhado com os objetivos do paciente.
Dispute com rigor intelectual, mas sem crueldade — o objetivo é clareza e liberdade, não uma forma mais sofisticada de autopunição disfarçada de racionalidade.