- Declarações "Deveria": A Tirania das Exigências Absolutas
- As declarações "deveria" — e seus equivalentes "tenho que", "preciso", "devo", "é obrigação" — são regras internas rígidas e absolutas sobre como o mundo, os outros ou nós mesmos deveríamos ser. Albert Ellis, fundador da REBT, chamou esse padrão de "musturbation" (da palavra inglesa "must", dever): a tendência de transformar preferências em exigências absolutas.
- A distinção crucial é entre querer e exigir. "Prefiro ser pontual" é uma preferência que, quando não atendida, gera leve frustração. "Devo ser sempre pontual" é uma exigência que, quando não atendida, gera culpa intensa, vergonha ou raiva — uma reação emocional desproporcional à importância real do evento.
- Três direções das declarações "deveria"
- As declarações "deveria" operam em três direções, cada uma com um custo emocional diferente:
- 1. Aplicadas a si mesmo: geram culpa e vergonha. "Deveria ter previsto isso." "Não posso cometer erros." "Tenho que dar conta de tudo." A pessoa se torna seu próprio juiz severo e implacável.
- 2. Aplicadas aos outros: geram raiva e ressentimento. "Ele deveria saber como me tratar." "As pessoas deveriam ser mais consideradas." Quando os outros não cumprem as regras não negociadas da pessoa, a decepção é intensa.
- 3. Aplicadas ao mundo/situações: geram frustração e baixa tolerância. "As coisas deveriam ser mais justas." "Não deveria ser tão difícil." O mundo real, inevitavelmente imperfeito, torna-se fonte constante de indignação.
- A origem das regras rígidas
- Muitas dessas regras foram internalizadas na infância, a partir de mensagens da família, cultura, religião ou escola. "Você tem que ser forte." "Nunca demonstre fraqueza." "Uma pessoa de bem faz X." No início, essas regras faziam sentido num contexto específico. O problema surge quando são carregadas rigidamente para contextos adultos onde já não servem.
- Como contestar
- A intervenção central é a flexibilização: substituir exigências absolutas por preferências e valores.
- "Deveria" → "Prefiro" / "Gostaria" / "Valorizo"
- "Tenho que" → "Escolho fazer porque é importante para mim"
- "É obrigação" → "Faz sentido para mim nessa situação"
- Perguntas úteis:
- "De onde vem essa regra? Ainda faz sentido?"
- "Essa exigência se aplica a todos os contextos ou é flexível?"
- "O que acontece comigo emocionalmente quando essa regra não é cumprida? É proporcional?"
- "Posso transformar essa exigência numa preferência sem perder o que é importante para mim?"
- Regras rígidas internalizadas na infância sobrevivem porque nunca foram questionadas — só aplicadas, repetidamente, ao custo da autocompaixão. - Transformar "devo" em "prefiro" não é abrir mão de valores — é libertar o valor da exigência que o tornava insuportável. - A intensidade da culpa quando a regra falha revela o quanto ela era absoluta, não o quanto o erro foi grave.