- Comorbidades no TEA: quase nunca é só o autismo
- A literatura clínica é consistente em um ponto: a comorbidade psiquiátrica no TEA é a norma, não a exceção. Estudos epidemiológicos mostram que entre 70% e 80% das pessoas autistas preenchem critérios para pelo menos um outro transtorno ao longo da vida, e a metade apresenta dois ou mais quadros comórbidos. Ignorar esse dado é um dos erros mais frequentes no atendimento — e explica por que tantos adultos autistas chegam à terapia tratando sintomas sem que a base do funcionamento seja reconhecida.
- As comorbidades mais frequentes
- Ansiedade (cerca de 40–50%): transtornos de ansiedade — TAG, fobia social, fobias específicas, transtorno obsessivo-compulsivo — são particularmente prevalentes. A imprevisibilidade do mundo social, a sobrecarga sensorial e o medo de "errar" em interações sociais alimentam um estado ansioso quase constante.
- Depressão (30–40%): especialmente em adolescentes e adultos com insight sobre suas dificuldades sociais, frequentemente associada a experiências cumulativas de rejeição, bullying, camuflagem exaustiva e isolamento.
- TDAH (30–50%): a sobreposição é tão frequente que o DSM-5, desde 2013, permite o duplo diagnóstico — que antes era excluído. A coexistência dificulta o manejo porque as estratégias para um podem conflitar com as do outro (ex: rotina rígida vs. flexibilidade).
- Transtornos alimentares: especialmente a seletividade alimentar (ARFID), relacionada a sensibilidade sensorial e rigidez, e em mulheres o quadro pode evoluir para anorexia.
- Transtornos de sono: insônia inicial, ciclo circadiano atípico, sono fragmentado.
- Disforia e suicidalidade: a taxa de tentativa de suicídio em adultos autistas é significativamente mais alta do que na população geral, especialmente entre os que têm diagnóstico tardio e menor rede de suporte.
- O conceito de burnout autístico
- Distinto da depressão e do esgotamento profissional comum, o burnout autístico é um quadro descrito especialmente a partir de relatos da própria comunidade autista e hoje reconhecido na literatura clínica. Manifesta-se como exaustão crônica, regressão de habilidades antes compensadas, aumento da sensibilidade sensorial, perda de tolerância a interações sociais e, por vezes, perda temporária de fala em indivíduos antes verbais.
- Geralmente é consequência de anos de camuflagem sustentada em ambientes pouco adaptados — escola, universidade, trabalho. O tratamento passa por reduzir demandas, aumentar o tempo em ambiente regulador, abandonar a camuflagem em espaços seguros e, muitas vezes, repensar escolhas de vida que se tornaram insustentáveis.
- Armadilhas diagnósticas
- O clínico não-treinado em TEA pode facilmente tratar a comorbidade sem identificar a condição subjacente, ou atribuir traços autistas a outro diagnóstico:
- "Rigidez cognitiva" pode ser rotulada como TOC
- "Dificuldade de reciprocidade social" pode ser lida como transtorno de personalidade
- "Sobrecarga sensorial" pode ser confundida com ansiedade generalizada
- "Interesses intensos" podem ser vistos como obsessivos
- Reconhecer o substrato autista muda completamente o planejamento terapêutico — e frequentemente desfaz décadas de tratamentos que não funcionaram porque trabalhavam no sintoma sem endereçar o funcionamento.
Sem reconhecer o TEA, trata-se sintoma após sintoma sem nunca entender por que nada funciona.