- Medir a depressão: por que o número importa
- Depressão é um espectro — do luto normal ao episódio grave com risco de vida — e tratar todos os pontos desse espectro da mesma forma é clinicamente inadequado. Escalas padronizadas permitem determinar a gravidade inicial, estabelecer uma linha de base objetiva, monitorar a resposta ao tratamento sessão a sessão e detectar recaídas precocemente. Para o paciente, ver os números mudando ao longo das semanas também tem valor terapêutico: é evidência concreta de progresso em um estado que frequentemente distorce a percepção de melhora.
- PHQ-9 — o instrumento mais utilizado no mundo
- O PHQ-9 (Patient Health Questionnaire, 9 itens) é o instrumento de rastreamento de depressão mais utilizado globalmente em contextos clínicos e de pesquisa. Baseado nos critérios diagnósticos do DSM, avalia os nove sintomas cardinais da depressão com pontuação de 0 a 27. Os pontos de corte são: mínima (0–4), leve (5–9), moderada (10–14), moderadamente grave (15–19) e grave (20–27). Pontuação ≥ 10 indica provável episódio depressivo. É gratuito, validado no Brasil e leva menos de 3 minutos para ser preenchido — tornando-o ideal para uso rotineiro no início de cada sessão.
- BDI-II — sensibilidade a mudanças clínicas
- O BDI-II (Beck Depression Inventory, 2ª edição, 21 itens) foi desenvolvido por Aaron Beck e é amplamente utilizado tanto na clínica quanto na pesquisa. Sua principal vantagem sobre o PHQ-9 é a sensibilidade a mudanças ao longo do tratamento: captura variações sutis no estado depressivo semana a semana, sendo especialmente útil para monitorar a trajetória do tratamento e identificar plateaus ou deteriorações. Requer licença para uso, disponível via Pearson/Cetepp no Brasil.
- HAM-D — padrão-ouro em pesquisa
- A Escala de Hamilton para Depressão (HAM-D ou HDRS) é aplicada por entrevistador treinado — não é um questionário de autopreenchimento. É o padrão-ouro em ensaios clínicos randomizados para avaliação de eficácia de tratamentos, o que significa que grande parte das pesquisas que fundamentam as intervenções da TCC usou a HAM-D como medida de desfecho. Conhecê-la é essencial para interpretar a literatura científica, mesmo que seu uso rotineiro na clínica seja menos prático que o PHQ-9 ou BDI-II.
PHQ-9 ≥ 10 indica depressão moderada — use para monitorar a resposta ao tratamento de sessão em sessão, não só no início.